Quem assina os documentos agora?

Comprar um automóvel é uma dessas aventuras tipo Indiana Jones, em que se pode terminar com um infarto do miocárdio ou numa longa espera de dez anos. Durante muito tempo só foi possivel obter-se um carro a partir de uma distribuição baseada na meritocracia. Um trabalhador destacado, com milhares de horas voluntárias e uma missão como soldado em Angola ou Etiópia, podia sentir-se afortunado se o permitiam adquirir um Moskovich ou um Lada. Os profissionais de maior graduação disputavam nas universidades e nos centros de estudo, as reduzidas dotações de automóveis. Enquanto que os funcionários governamentais podiam aspirar à modelos mais modernos, que eram consertados em oficinas do próprio Estado.
Quando as tubulações que conduziam o subsídio do Kremlin até aqui colapsaram, terminou a distribuição por méritos de eletrodomésticos e carros. Começou a funcionar – outra vez – o dinheiro como moeda de troca por um veículo. Não obstante, manteve-se um filtro seletivo para obter-se o direito de comprar os récem chegados Citröen, Peugeot ou Mitsubishi. Os velhos autos adquiridos antes de 1959 podem ser vendidos, porém está proibido passar à outro dono os obtidos por qualidades laborais e ideológicas. As regulações terminaram por reconhecer que o alcançado naqueles anos de “socialismo real” era sómente uma propriedade a meia, intransferível e facilmente confiscável.
Até os dias de hoje, ainda que algumas lojas mostrem em exibição modernos todo-terreno e vans climatizadas, nenhum cubano pode dirigir-se à elas e comprar – sem outro requisito que não o dinheiro – um automóvel. Tem que receber antes um documento de autorização, a que se chega depois de anos de burocracia. O processo inclui uma exaustiva supervisão da origem dos fundos e a comprovação da “limpeza” ideológica do comprador. Por quase uma década. a assinatura deste salvo conduto era feita por Carlos Lage, vice-presidente do Conselho de Ministros, defenestrado fazem algumas semanas. De maneira que em meio ao estupor pela sua substitução, alguns se perguntam: quem assinará agora os documentos para obter o desejado automóvel?















abril 4th, 2009 a las 18:54
Nenhum governo pode resistir à inteligência, nem ao humor. Morri de rir com esse post. Parabéns Yoany, você me faz ter pena de Raul. Aqui no Brasil tinha um goleiro muito famoso chamado Raul e os radialistas sempre exageravam no u do Raul. Rauuuuuuuuuuul, ele gritavam. Faço o mesmo: Rauuuuuuuul, você se fodeu, Yoany tá no seu pé. beijo.
abril 4th, 2009 a las 16:43
aqui no Brasil, onde vivo ( Rio de Janeiro ), somos livres para comprar carros, para falar o que pensamos e para morrer de fome. somos livres para perder nossos empregos quando ficamos doentes e livres para morrer nas calçadas esperando vaga na recepção dos hospitais. nossas crianças são livres para morrer de diarréia e, se sobreviverem, crescerem analfabetos condenados à situação de mão-de-obra barata, se tiverem a sorte de arrumar alguém que as explorem por 10 ou 12 horas por dia, para receberem um salário de miséria. somos livres para votar em troca de comida e de dentaduras e livres para permanecer na miséria e garantir os votos na próxima eleição por mais comida e, quem sabe, outra dentadura. aqui somos livres para comprar carros, mas somos impedidos de compra-los pela liberdade de sermos pobres para nos submetermos aos desmandos da minoria rica e livres para ficar satisfeitos com essa ilusão de democracia.