Mi libro De Cuba, Com Carinho

O livro sobre a Yoani


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A ilha roubada

Premio Ortega y Gasset 2008
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Periodismo Digital

The Bobs

Premio del Jurado en Bitácoras.com
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Documentário brasileiro sobre Cuba

Este sítio

Este sítio em português da Geração Y é trabalho de tradutores voluntários. Se voce quiser comentar a respeito das traduções ou quiser sugerir correção para nossos erros, e especialmente para os "cubanismos", por favor envie e-mail para: DesdeCubaEnglish@gmail.com

Também se quiseres ajudar na tradução.
Contato com o tradutor: geracao_y@hotmail.com

Marzo 2010
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Geração Y é um Blog inspirado em pessoas como eu, com nomes que começam ou contem um ípsilon. Nascidos na Cuba dos anos 70 e 80, marcados pelas escolas rurais, bonequinhos russos, saidas ilegais e frustração. Assim é que convido especialmente Yanisleidi, Yusimí, Yuniesky e outros que carregam seus ípsilons para que me leiam e me escrevam.

Casa de cristal

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Junto da telenovela brasileira, os documentários pirateados do Discovery Channel e a chatíssima mesa redonda, coexiste uma modalidade de reportagens televisivas seguidora da saga “Big Brother”. Em nossa pequena tela assistimos cidadãos filamdos por câmeras ocultas e vemos a divulgação das mensagens contidas em suas caixas de correio eletrônico, sem que para isso tenha havido a ordem de um juiz. Como se vivêssemos numa casa de cristal inspecionada pelo severo olho do estado, até a própria empresa telefônica grava as conversas de seus clientes e as transmite para onze milhões de telespectadores atônitos.

A última modalidade desta dissecção pública é induzir médicos a falarem, violando a privacidade do falado numa consulta - fato tão grave como o do sacerdote que revela os segredos da confissão - dos pormenores de um caso médico. Saem fotos do interior das casas e dos refrigeradores de quem tenha ousado contrariar a opinião oficial, enquanto o paparazzi e o policial político se fundem num só personagem muito próximo ao do voyer. Não me causaria estranheza que em algum dossiê - esperando por vir à luz - apareça o corpo nú de um inconformado, como se estar desnudo fosse a prova irrefutável de sua “maldade”.

Imagens tiradas de contexto, frases editadas e ângulos desfavoráveis para gerar aversão na opinião pública, são algumas das técnicas com que se constroem estes informes televisivos. Em nenhum deles se entrevista a “vítima”, pois assim evitam que a audiência pública comprove que divide com ela as opiniões críticas. Para má sorte dos grosseiros produtores deste tipo de reality show, a tecnologia em mãos cidadãs começou a tornar transparentes também as paredes de suas vidas. Depois de haverem sido observados longamente, agora comprovamos que há um buraco para olhar o outro lado da cerca.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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O voto inútil

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Vejo meus concidadãos irem como autômatos ao botequim, vegetarem mansamente no trabalho e colocarem sem esperanças os votos nas urnas. Suas vidas passam enquanto compram o pão - cada vez menor - recebem o salário simbólico que não lhes é suficiente nem para viver mal e levantam a mão nas assembléias de designação de candidatos. Nenhum dos eleitos no atual proceso eleitoral conseguirá resolver os problemas do cotidiano que lastreiam a vida em Cuba. Dos propostos se conhece apenas sua fotografia e uma biografia cheia de “façanhas”, onde se declara - quase sempre - que têm “uma origem humilde”. Não aparece sequer mencionada uma palavra acerca dos seus programas ou intenções depois que assumirem o novo cargo.

Curiosamente, quase todos os que chegam a ser delegados de circunscrição são militantes do PCC e põem sua disciplina partidária acima dos deveres para com seus eleitores. Não vão nos representar frente ao governo, nem serão nossa voz projetada às instituições, senão que atuarão como os arautos de malas novas chegadas de cima, canais de transmissão dessas regulações e diretrizes que uns poucos decidem. Em mais de trinta anos de sua existência estes representantes do Poder Popular não conseguiram que o lixo seja recolhido eficientemente, as padarias trabalhem com qualidade e os esgotos não transbordem por todas as partes. Tampouco encarnam a heterogeneidade de tendências existentes em nossa sociedade. Chegaram a esses postos mais por sua provada fidelidade que por sua capacidade de gestão.

Esta noite é a reunião para propor candidatos na zona de blocos de concreto onde vivo. A citação chegou faz um par de dias enquanto na televisão nos convocavam para eleger os melhores e os mais capazes. Contudo, não tenho nem um pouco de fé num mecanismo que provou sua inoperância e seu sectarismo. Gostaria de levantar a mão pelo vizinho de verbo firme e projetos concretos que vive em frente, porém há ordens de perseguir quem aponte um “dissidente”, inclusive esses que só parecem ser propensos à mudança. Existem muitas possibilidades de que seja ratificado o mesmo delegado que desde há mais de dez anos nos promete soluções, consciente que não está em suas mãos cumpri-las. Ele é o candidato cômodo destas eleiçoes inúteis, e nós meros manequins que devem levantar a mão ou preencher o voto.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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No corredor dos condenados a ficarem

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A senhora levanta o selo e o aproxima da folha para finalmente colocá-lo ao lado sem haver impresso tua permissão de saida. “Você não está autorizada a viajar”- te diz - e todos no escritório escutam a frase que te condena à ficar reclusa nesta Ilha. Nas outras mesas os solicitantes olham os pés para evitar que teus ohos cruzem com os deles buscando solidariedade. Os militares que passam te perscrutam de cima em baixo com a reprovação de quem pensa “algo deve ter feito, para que não a deixem sair”.

Até o último minuto pensaste que na melhor hipótese os arquivos do Ministério do Interior não estariam tão organizados e teu histórico de inconformidades não sairia reluzindo. Frequentemente especulavas que uma secretaria iria por uma pizza justamente no momento em que revisava teu processo e as fisgadas de seu estômago a fariam colocá-lo - a toda velocidade - no montãozinho dos aprovados. Bem sabes sobre que efeito o queijo derretido e o molho de tomate podem causar num burocrata que olha seu relógio as tres da tarde.

Contudo, a opção da negligência estatal não funcionou desta vez. Detectaram teu caso desde que apresentaste os primeiros planos para uma viagem ao Sul. Algum chefe com graduação de tenente-coronel haverá sorrido ao ver que finalmente estavas em suas mãos. Depois de acreditares que podias atuar como um homem livre, dizendo tuas opiniões a viva voz e publicando artigos sem pseudônimo, havias chegado ao ponto onde te fariam sentir todos os muros, todas as grades e todos os cadeados.

Não tens antecedentes criminais, jamais fostes condenada por um tribunal e teus delitos mais frequentes consistem em comprar queijo ou leite no mercado negro. Não obstante acabas de comprovar que continuas purgando teu castigo. Tua sentença é ficares atras das trancas deste arquipélago, reclusa por essa franja de mar que alguns ingênuos consideram uma ponte e não o fosso instransponivel que realmente é. Ninguem vai deixarte sair, porque és uma reclusa com um número pregado nas costas, ainda que creias que levas a blusa que tiraste do armário esta manhã. Estás no calabouço dos “peregrinos imóveis”, na cela dos obrigados a permanecer.

Pela janela uma voz te recrimina por não te haver calado, fingido um pouco…levado a máscara para poder viajar. Não poderás ver a luz até que o cárcere venha abaixo!

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Vontade de gritar

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A vida nunca volta à normalidade. Não retorna a este momento antes da tragédia que agora – ilusoriamente – evocamos como um período de calma. Abro a agenda, tento renovar minha vida, o blog, as mensagens no Twitter… Porém nada consigo. Estes últimos dias foram muito intensos. Só tenho cabeça para rememorar o rosto, nas penumbras, de Reina Tamayo ante o necrotério, onde preparou e vestiu seu filho para a mais longa viagem. Depois se acumulam as imagens da quarta-feira: detenções, golpes, violência, um calabouço fedendo a urina que era próxima de outro onde Eugenio Leal e Ricardo Santiago exigiam seus direitos. O resto do tempo tem sido caminhar como uma boneca, olhar sem ver, teclar com fúria.

Desse modo não há quem escreva uma linha coerente e moderada. Tenho tanta vontade de gritar, porém fiquei rouca em 24 de fevereiro.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Testemunho da mãe de Orlando Zapata Tamayo

Esta tarde (23/2), horas depois da morte de Orlando Zapata Tamayo, Reinaldo e eu pudemos aproximar-nos do departamento de Medicina Legal na rua Boyeros.

Um cordão de homens da segurança do estado vigiava o lugar, porém conseguimos aproximar-nos de Reina, mãe do falecido, e fazer-lhe estas perguntas.

Dor, indignação em nós…tristeza profunda nela.
Aqui deixo a gravação, alternativa e sem luz, porém testemunho pungente da angústia de uma mãe.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Cúpula Euro Latinoamericana

Cúpula Euro Latinoamericana

Para assistir direto a transmissão via Internet da apresentação da próxima cúpula Euro Latinoamericana pelo Secretário de Estado para Iberoamérica do Governo da Espanha, Pablo de Laiglesia, coloquei vários links para o evento.

Esta é uma atividade organizada pela Sociedade das Índias Ocidentais para a blogosfera latinoamericana.

Aqui tem um vídeo e mais abaixo o link para comentar o que vai ocorrendo, além de uma transcrição em texto de toda atividade.

Para que os leitores possam comentar, este é o link:

http://www.lasindias.coop/presentacion-de-la-cumbre-eurolatinoamericana-a-la-blogsfera-latinoamericana/#respond

A transcrição do que ocorrer pode ser vista aqui:

http://www.lasindias.coop/presentacion-de-la-cumbre-eurolatinoamericana-a-la-blogsfera-latinoamericana/

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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O azar

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Pudeste haver sido uma prostituta vendendo seus favores ou mesmo uma interrogadora da segurança do estado. As necesidades eram tantas que entregar teu corpo em troco de um frasco de xampú ou de uns sabonetes foi uma possibilidade muito próxima. Só que tua silhueta era muito frágil para a troca e tinhas uma pele muito branca para esses estrangeiros que vinham buscando o tom canela dos anúncios turísticos. Faltou-te um “tantinho assim” para vestir o apertado traje de troca de sexo por dinheiro e ficar na porta de um hotel para tirar a família da dificuldade.

Estiveste também a ponto de trajar um uniforme quando ao terminar o nono grau pensaste em ir para a escola militar Camilo Cienfuegos, para sair de uma casa onde abundavam as proibições e a miséria. Acreditaste que estavas preparada para converteste num soldado de lábios contraídos para ter acesso à esses pequenos privilégios que vias os membros do MINFAR e do MININT desfrutarem. O conselho oportuno de um amigo te fez desistir dos gritos de “iFirmeeee!” e do tiroteio constante de um fuzil AK. Porém se naquela tarde de 1990 não houvesses escutado a pergunta “Que tu vais fazer no meio de ordens e trincheiras?” talvez agora estarias intimidando alguém numa casa fechada da Vila Marista.

Poderias ter sido balseira, suicida, amante de um ministro, censora ou prisioneira política, policial ou vítima. Não era possivel transcender indene aquela crise dos anos noventa que te coube viver, o descalabro dos valores e o cenário marginal onde havias crescido. Algo de ti ficou numa lycra vermelha colocada numa esquina e na dragona de um tenente, nessas possiveis pessoas que pudeste ser e das quais o azar, a eventualidade e tua própria aversão te salvaram.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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GPS

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A propósito das conversações sobre migração entre Cuba e Estados Unidos que estão ocorrendo hoje em Havana.

Carlitos finalmente chegou em Atlanta, depois de tentar cinco vezes cruzar o estreito da Flórida. Em duas ocasiões foi interceptado pelos guardacostas norteamericanos e devolvido à Ilha. Guardou durante meses o documento amarelo que lhe deram para que solicitasse - de maneira legal - um visto na Seção de Interêsses dos Estados Unidos. Contudo ele preferia um caminho mais rápido para deixar para trás o quarto que dividia com a avó e o assédio dos policiais do seu bairro. Foi capturado também pela parte cubana, num 13 de agosto faz tres anos, quando o barco quebrou a hélice e a viagem terminou num calabouço do povoado de Cojímar. Alí lhe deram uma multa e desde esse dia um agente vestido de civil começou a visitá-lo para exigir que procurasse um trabalho.

Depois de comprovar seus parcos dotes como marinheiro, este jovem de 32 anos conseguiu ir para o Equador, um dos poucos países que ainda não exige visto dos cubanos. A nação sul americana foi o trampolim para entrar no território estadounidense, onde hoje trata de começar uma vida nova. Deixou nas mãos de uns amigos o GPS que o havia ajudado em suas travessias e aquele formulário que nunca preencheu para pedir um visto humanitário. Não marchou para um destino determinado, senão que foi espantado pelo quarentão frustrado em que temia converter-se. Nem sequer nos seus dias de maior otimismo podia augurar que chegaria a ter um teto próprio, nem um salário que o impedisse de desviar recusos do Estado para sobreviver.

Como tantos outros cubanos, Carlitos não pode esperar que as promessas que nos fizeram quando crianças se materializassem. Não quis envelhecer sentado na calçada em frente a sua casa, acalmando seu fracasso com álcool e alguma outra pílula. Planejou todo tipo de escapadas, porém finalmente um tio pagou a passagem para que chegasse a Quito com a ilusão de poder trazer depois o resto da família. Contudo sonha com lanchas que se aproximam em meio a noite e o levam algemado para Cuba cheirando a salitre e petróleo. Perde o sono e olha ao redor, para comprovar que continua no pequeno apartamento que alugou com uma amiga. “Balseiro uma vez, balseiro sempre” murmura e se acomoda na almofada, tentando sonhar com terra firme.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Autonomia universitária

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Escutei centenas de vezes que o espaço universitário - como um santuário - não podia ser invadido pelos demônios da repressão. Imaginei que estes revoavam ao redor da escadaria sem poder entrar nessa zona de letras e fórmulas matemáticas onde se abrigam os alunos. Porém essa suposta imunidade só existia nas minhas fantasias, pois a história cubana mostra as transgressões sucessivas que as universidades do meu país sofreram. Ante o olhar de Palas Atena, o castigo irrompeu uma infinidade de vezes nesses recintos destinados ao conhecimento e erudição.

Durante a primeira metadde do século XX, vários protestos de estudantes chegaram a exigir até a renúncia do presidente, evidenciando a força social que emanava das escrivaninhas. Nos muros ao redor da Colina, ainda se observam as pinturas da inconformidade juvenil que as depurações revolucionárias posteriores reduziram à apatia. A Federação Estudantil Universitária deixou de ser aquele formigueiro de ideias e ações que mais de uma vez sacudiram a cidade, para se converterem numa representação do poder frente aos educandos. A organização perdeu assim todo ser caráter rebelde e seus líderes já não são eleitos pelo seu carisma ou popularidade senão pela sua confiabilidade política. O slogan “a universidade é para os revolucionários” contribuiu para impor a máscara como o método mais seguro para conseguir um diploma.

Nestes dois anos, desde que Raúl Castro chegou ao poder, as expulsões por motivos ideológicos se mantiveram - com tendência de alta - nos centros de estudos superiores. Quando Sahily Navarro - filha de um prisioneiro da Primavera Negra - foi impedida de regressar às aulas, eu soube que a maltratada liga estudantil havia passado da agonia para a necrose. Poucos dias depois, a lápide do sectarismo cobriu os restos da FEU ao afastar Marta Bravo do seu curso de professora, por exigir reformas no país. Os acordes do réquiem foram compostos pelos que afastaram da docência Darío Alejandro Paulino, depois de abrir um grupo no Facebook para discutir questões da faculdade de Comunicação Social. Com estes tristes acontecimentos, a federação - que uma vez foi liderada por Julio Antonio Mella - confirmou seu falecimento nas mãos dos dragões do dogmatismo e da intolerância, que hoje passeiam livremente pelo seu campus universitário.

*No Facebook foi criado um grupo chamado “Basta de expulsões nas Universidades cubanas” para protestar - ao menos virtualmente - contra estas arbitrariedades.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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Regressaram

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Planícies, neve, maçãs e o ruído de um machado que cortava a lenha em pedaços desiguais. Dessas imagens e sons alheios nossa infância se nutriu devido a presença excessiva da União Soviética na Cuba dos anos setenta e oitenta. Tiritávamos de frio olhando os desenhos animados checos e búlgaros, enquanto fora o sol do trópico nos recordava que continuávamos no Caribe. Aguns soubemos dizer primeiro “koniec” do que articular o monossílabo “fim”, até que um dia os ursos emigraram, deixando-nos sem os filmes de soldados vitoriosos e mujiques sorridentes.

Depois de 1991 as abundantes tiragens da editora russa MIR só podiam ser encontradas nas livrarias de segunda mão sob o manto empoeirado do abandono. Neste fevereiro, contudo, a Feira Internacional do Livro dedicou sua XIX edição ao país que durante décadas foi mentor e suporte econômico do processo cubano. Os camaradas que anteriormente pagavam pelo nosso açúcar preços astronômicos - enquanto nos vendiam seu petróleo por uma bagatela - retornaram vestidos de terno e gravata. Aterrizaram na iha que uma vez subsidiaram, porém desta vez para comercializar suas obras impressas em cores brilhantes e temáticas alheias ao marxismo.

Na esplanada da Fortaleza de la Cabaña se entrecruzaram as longas filas para comprar os novos títulos chegados do Leste. Meninos aqui e alí folheam as páginas onde aparecem espigas de milho douradas e gente coberta por chapéus com enormes protetores de orelhas. Porém já não é o mesmo. A presença obrigatória que uma vez essa iconografia teve em nossas vidas é, para esses pequeninos de hoje, mera curiosidade pelo exótico. Em suas mentes infantis, os abetos não substituirão as palmeiras nem as raposas as lagartixas; Rússia será para eles só uma região longínqua e diferente.

Traduzido por Humberto Sisley de Souza Neto

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